Detalhes que fazem a diferença

Proprietário do Luv Motéis, Luis Eduardo Stedile fala sobre os percalços como gestor de três motéis e como sua percepção no mercado o tornou uma referência em qualidade e boas ideias para o segmento moteleiro

 

Por Rodrigo Moraes, com Daniele Amorim

 

Sobre a mesa do escritório das três unidades da rede Luv Motéis – Blumenau (SC), Caxias do Sul (RS) e Joinville (SC) -, há uma miniatura de uma cama com lençol, travesseiro e o símbolo do motel. A ideia de manter uma cópia fiel do móvel foi do proprietário, Eduardo Stedile, para lembrar aos gestores e líderes sobre uma teoria, adaptada por ele, do travesseiro: “Clientes e a própria equipe eventualmente irão tirar o travesseiro do local exato. E nós, como líderes, não podemos nos dar ao direito de nos aborrecermos com sua retirada. Nosso dever é recolocá-lo na posição correta toda vez que ele estiver fora e nunca deixar que, por conveniência, a equipe decida onde é o lugar certo, pois esse é nosso maior valor”.

A tática, é inspirada na teoria do saleiro, do norte-americano e chefe executivo do Union Square Hospitality Group, Danny Meyer, e disseminada para os moteleiros pelo sócio do Lush Motel,
Felipe Martinez, tem dado certo no negócio de Stedile. O Luv Motéis vai muito bem, obrigado.

No entanto, para Stedile ser hoje um empreendedor exemplar para outros moteleiros, muitas coisas tiveram que acontecer. A primeira foi deixar de trabalhar com o pai na empresa familiar no ramo da construção civil. A segunda foi a decisão de largar o curso de administração com ênfase em marketing faltando dois semestres para o término por achar que faltava a prática no ensino oferecido e se dedicar a um negócio próprio. A terceira foi inaugurar, em 2004, o Pharras Motel, em Caxias do Sul (RS), destinado ao público jovem que procurava um lugar para uma estada curta, barata e sem necessidade de serviços adicionais. E a última foi ver, após o sucesso nas duas primeiras unidades, o modelo de negócio não deslanchar na cidade de Blumenau e, sendo assim, repensar a estratégia e ir atrás de referências e informações para alcançar o sucesso no mercado.

Por um tempo, a estratégia do Pharras Motel deu certo. No entanto, o perfil do consumidor mudou e a lucratividade de uma das unidades começou a cair. “Foi o que mais assustou. Mas tudo isso veio por um bom motivo, pois, como não tínhamos um sistema de gestão, fazíamos as coisas de qualquer jeito. Finalmente, quando tomei esse susto, comecei a me profissionalizar, me especializar e atuar de maneira mais sólida”, relembra.

Em uma conversa franca – e com uma verdadeira aula de empreendedorismo para o setor -, o empresário fala sobre esse estalo que aconteceu em sua carreira, a mudança da marca para Luv Motéis e quais foram suas atitudes para ter um negócio consolidado no ramo. Confira o bate-papo.

 

Luis Eduardo Stedile – Proprietário do Luv Motéis

 

Como foi o seu começo no setor moteleiro?

O Pharras Motel era um lugar com suítes pequenas e períodos de uma hora, focado na rotatividade e praticamente sem serviços extras oferecidos. Não tinha frigobar, cozinha e, no início, tampouco pernoite.

 

E como foi essa recepção dos motéis mais antigos?

Em Caxias do Sul, não tivemos resistência, pois já existia outro motel com esse conceito de preço baixo e rotatividade. Na época, havia espaço e movimento para todo mundo. Onde eu tive mais resistência de entrar com esse formato foi em Joinville. Os empresários da região me chamaram para conversar por causa do meu preço. Expliquei que realmente a gente cobrava mais barato, pois não entregava nenhum outro serviço. Eu era o “carro popular” dos motéis da cidade.

 

Você arriscou e decidiu abrir novas unidades em outro estado. Você tomaria a mesma decisão atualmente?

Com certeza. Quando fui visitar Joinville pela primeira vez, já fui com a intenção de buscar um terreno para construir o motel. Não tinha assessoria, pesquisa de mercado, e tampouco sabia quanto eles cobravam. Reuni informações informalmente. Meu primeiro motel tinha dado certo. Segui o mesmo modelo no segundo e deu certo também. Aí meu excesso de confiança falou mais alto. Em Blumenau, esse otimismo me fez perder alguns anos porque a cidade não precisava de mais um motel barato, e sim de um motel bom, diferenciado. Os gráficos começaram a apontar para baixo. Foram três anos sem dar retorno.

 

Você é muito ligado nessa questão de números? Acompanha isso de perto?

Tem uns indicadores que vejo com frequência. É importante estar atento às tendências e possibilidades de mudança.

 

Mas você se baseia nisso para tomar as decisões ou opta mais pela intuição?

Eu tento me basear nisso. Números são exatos e nossa intuição pode errar. Para algumas situações, me baseio apenas na matemática. Em outras, pondero as duas coisas. Vai de cada um achar o equilíbrio. Naquela altura, me assustou quando começou a cair o número de locações nos três motéis. Por quê? O que eu enxerguei? A população está crescendo, a expectativa de vida é maior, mais pessoas completam 18 anos, o mercado está aumentando. O número de motéis nas cidades não aumentou, mas o consumo estava caindo? Pensei: pô! Alguma coisa está acontecendo? O perfil do consumidor está mudando ou isso é um reflexo da crise? Essa queda aconteceu em 2014, mesmo período do início da recessão. Tem pessoas que estão deixando de usar motel e eu preciso ir atrás do público que se atraia por essa experiência, ir atrás de novos clientes.

De qualquer maneira, acho que essa mudança e o erro cometido vieram por um bom motivo. Até 2013, não tínhamos um sistema de gestão qualificado. Fazíamos as coisas de maneira orgânica. E foi aí que o excesso de confiança e os problemas enfrentados me assustaram. Ali percebi que precisava me profissionalizar, estudar e fazer o negócio funcionar de maneira profissional.

 

Como você fez isso?

Corri atrás dos meus objetivos. Pesquisei. Viajei, conheci muitos motéis e, principalmente, pessoas. Foi nessa época o meu primeiro contato com o Rodolfo, do Guia de Motéis. Mandei um e-mail perguntando se ele poderia me ajudar a conhecer alguns motéis e, chegando a São Paulo, pude ver a quantidade de pessoas realmente profissionais atuando no mercado. Fiz várias reflexões sobre como eu enxergava o negócio. Da mesma forma que um empresário do setor de locadoras de vídeo, por exemplo, pode não ter enxergado as ameaças, daqui a pouco podemos ser nós a não ver as mudanças. E eu acho realmente que houve uma mudança muito grande no perfil do consumidor de motel.

 

Como foi a transformação da marca para o Luv?

Essa mudança de perfil que estava buscando me fez pensar que tinha que fazer algo também com a marca. Fui para São Paulo e falei com várias pessoas da área. Até que fui apresentado ao Guilherme (da Sebastiany Branding) e a gente começou a mudar o conceito do motel como um todo.

 

Voltando para 2004, quando você fundou o primeiro motel. Como você era como empreendedor e como você é hoje? 

Eu fazia as coisas sem me questionar, analisar, pensar. Hoje, me sinto longe de ser bom, mas me considero um cara que corre atrás das coisas, estuda, observa e sempre tenta fazer o melhor. Também tenho uma equipe espetacular na gestão de cada unidade. Pensamos da mesma maneira. Os colaboradores vestem a camisa da empresa e agregam valor. Eles estão sempre em busca do melhor. Questionam-se e buscam uma nova meta e um melhor clima de trabalho. Com certeza, todo nosso sucesso é mérito dessa equipe que está comigo. Eles me trazem muitas ideias boas. E claro, o susto de de repente não ter mais um negócio dando certo foi o que me fez ir atrás para me especializar e ser um melhor administrador.

 

Para administrar um motel, é necessário ter visão de negócio e, também, focar nos detalhes da experiência do cliente. Como é liderar todo esse fluxo de trabalho?

É muito bacana. Adoro quando surge uma ideia nova e temos a oportunidade de implantar no motel. Faz parte da administração, não devemos estar somente focados no produto, gestão ou números. Um bom administrador tem que saber de tudo um pouco e estar toda hora pesquisando para melhorar o serviço ou produto.

 

Como é possível fazer essa administração de pessoas em três cidades diferentes, sem estar presente nesses motéis diariamente?

Não estar presente é um dos maiores desafios. Quando estou longe, preciso ter pessoas que me representem da mesma maneira. Hoje, todos os meus gerentes e supervisores têm o meu perfil de trabalho, então mesmo não estando no motel, as pessoas que trabalham ali sentem que estou por perto.

 

O que você faz para manter essa proximidade?

Acho que é necessário entregar autonomia, responsabilidade e empoderamento às pessoas. Depois que mudamos nossa gestão, passamos a dar muita atenção para nossa equipe. O time do Luv tem que estar bem, saber os valores da empresa e se sentir parte de algo maior.

 

O Luv tem a cultura de propor ações para seus colaboradores. Conte mais sobre elas.

Nossa cultura – chamada Show Luv – foi implantada no final do ano passado. As suítes são o nosso palco e os bastidores do motel são os espaços onde o elenco atua para que o show aconteça.

Nós tínhamos esse jeito de trabalhar, mas o que fizemos foi dar um nome, uma cara, para formalizar nossa cultura. E nosso endomarketing é muito forte, não deixamos passar nenhuma data sem ter uma ação. Uma vez por mês, nosso gerente e a supervisora sentam com cada equipe e apresentam todos os resultados: reservas, locações, agenda do próximo mês, degustação dos novos pratos a serem servidos e investimentos previstos. Isso os ajuda a se sentirem parte do negócio.

 

Quais metas vocês buscam?

Temos metas de locações, avaliação de cliente, avaliação de plataformas digitais, clima da equipe, rotatividade e despesas.

 

O que mudou no modelo das suítes com o novo conceito da empresa?

Começamos na arquitetura e criamos suítes novas. Reformamos primeiro cinco suítes em Blumenau. Tínhamos medo de não dar certo. Com o bom resultado, reformamos o motel de Joinville e depois Caxias. Mudamos todo o conceito: nome, perfil, e optamos por quartos econômicos e premium. Passaram a ter a cara do Luv.

 

Qual é a verdadeira marca do Luv?

É a do bom gosto. Eu acredito muito no bom gosto. Todo mundo gosta de algo bem feito.
Trata-se de uma transformação. Por isso, esse zelo com os detalhes. Queremos transformar o quarto do motel em um espaço que a pessoa consiga ficar ali para realmente ter uma experiência. Recentemente, vimos um recado que os clientes deixaram no quarto: “Obrigado, Luv. Um novo casal se forma aqui”. Isso é o que a gente busca.

Quando se observa isso, estamos falando claramente de experiências. Por isso, focamos tanto em conveniência quanto no serviço, aspectos fundamentais para o Luv. Temos menu de travesseiros, menu de copos e taças para vinhos e cerveja, travesseiro para uso da hidromassagem. Detalhes para deixar a experiência cada vez melhor.

 

Há planos de inaugurar um próximo motel? O que você faria melhor? O que faria de diferente?

Cada retrofit que fizemos com esse conceito novo já foi atualizado e melhorado. E nosso próximo motel vai ser algo feito com uma mistura de coisas já feitas no mercado, porém, com novidades. Esse é nosso estilo e, com certeza, estaremos nos próximos anos acrescentando coisas novas.

 

Outra questão nova no mercado moteleiro é o contexto das reservas feitas pelo celular, especialmente no guia de motéis go. Como o Luv Motéis vê essa nova cultura sendo instaurada?

Passamos a fazer parte recentemente da plataforma, começando pela unidade de Blumenau. Primeiramente, o que já conseguimos constatar é um sentimento de surpresa, pois isso é algo que nunca aconteceu e nunca se pensou que pudesse ter. Acreditamos muito que vai dar certo e representará uma boa parte das locações das suítes por meio do sistema de reserva imediata.

 

Como você vê o motel do futuro, levando em consideração as outras opções de lazer e, até certo ponto, concorrentes no setor?

Esses concorrentes, como hotéis e flats, não são algo que me incomoda. Concorrência sempre vai existir. Os cinemas e restaurantes também são opções de lazer, bem como a própria casa das pessoas pode ser uma opção atrativa. Talvez eles até tenham características que possam ser trazidas para nosso segmento. Para mim, o motel é único.

 

E o que é um motel bom?

Meu conceito de motel “bom ou ruim” está no real interesse em atualização de seu proprietário. E quanto mais motéis bons houver, melhor para o setor.

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *