Engenheiro, ele é um moteleiro de sucesso

Há 30 anos no mercado de motéis, o italiano Gilberto Dionisi continua inovando. E promete, para este ano, mais um empreendimento inédito.

Fundador de tradicionais motéis de Porto Alegre, como o Alpes, o Sahara, o Medieval e o Cálidon, Gilberto Dionisi faz coisas consideradas maluquices por muitos. Ele colocou, por exemplo, um confessionário dentro de uma suíte e, em outra, uma gaiola com balanço, igual à dos passarinhos, mas em proporções para ser usada por humanos. Na sua mais recente iniciativa, transformou uma suíte num amplo, completo e equipado espaço gourmet, com fogões industriais e caseiros, churrasqueira, micro-ondas, várias camas, máquina de fumaça e barra para pole dance. Isso tudo numa única acomodação. Em breve ele entrega o motel que está sendo erguido em cima do Cálidon. Juntos, esses dois motéis formarão um castelo grego de 7 mil metros quadrados. E um novo empreendimento deve pintar ainda este ano.

À primeira vista, pode até parecer que ele oferece opções no mínimo diferentes para seus clientes. Mas, ao conversar com esse empresário de 62 anos, nascido na Itália e desde novinho no Brasil, é possível entender de onde vêm tantas ideias e compreender por que elas são um verdadeiro sucesso.

Há 30 anos no ramo moteleiro, Gilberto é engenheiro civil e eletricista, foi professor da PUC e chegou a fazer carreira na área. Foi exatamente em uma das empresas onde trabalhou que, junto com alguns colegas também engenheiros, decidiu fazer o seu primeiro negócio no ramo: o Motel Alpes.

Quando deu a notícia para a mãe, lá por meados de 1978, ela quase teve um infarto. Também, pudera. Onde já se viu um engenheiro mexer com motel. Naquela época, o tema era tabu puro. Hoje, 30 anos depois, trabalham com ele a esposa e as três filhas. Elas também enfrentaram alguma resistência por conta do trabalho do pai. E, como ele, se formaram em outras áreas até se entregarem à sua verdadeira vocação: os motéis, que carinhosamente chamam de spas, por entender que, mais do que um lugar para o sexo, trata-se de um ambiente a que todos vão em busca do prazer. Seja para fazer amor ou para uma bela festa em família, com direito a macarronada e a presença da nonna, em pleno motel. Mamma mia! A seguir, acompanhe trechos da entrevista que Gilberto concedeu à revista Moteleiro, em que ele conta um pouco de suas experiências, inspirações e também dá pistas do que vem por aí.

Revista Moteleiro: De engenheiro a moteleiro. Como foi esse caminho?

Gilberto: Comecei com colegas, na empresa em que trabalhávamos, a ter essa ideia, pois acreditávamos que era um segmento com bom movimento. Compramos um terreno e, em 1980, inauguramos o Motel Alpes, que ainda é meu e está em operação. A partir daí, fomos ampliando e inauguramos o Senzala, em 1985, e o Medieval, em 1989. Destes, não sou mais sócio. Em 1993, inaugurei o Sahara. Já o Cálidon foi há 5 anos, mas ainda não está finalizado. Teremos um outro motel no andar de cima dele, com o nome de Creta.

RM: De onde vem a inspiração para construir seus motéis, que são tão diferenciados?

Gilberto: Eu trabalho diretamente no projeto e na execução das obras de cada motel. No caso do Alpes, eu sou italiano, e o motel fica numa montanha com aspecto alpino. Então, tivemos a ideia de ligar ao tema. Depois, no Senzala, a inspiração foi uma casa colonial do tempo das fazendas. Fiz pesquisa no Rio de Janeiro e em Salvador sobre essas construções. Já para o Medieval, que é um castelo medieval italiano, estive na Itália por um mês visitando mais de cem castelos. Só na Itália existem castelos medievais feitos de tijolos. Os ingleses e franceses são de pedras. Usamos um milhão de tijolos, todos de acordo com as características de um verdadeiro castelo medieval. No caso do Sahara, a inspiração veio da minha esposa, que é descendente de Libaneses. É uma homenagem para ela, então fomos para o Marrocos e Turquia estudar os palácios e as mesquitas, por lá existem mesquitas tão ou mais sofisticadas que os palácios. Já o Cálidon e o Creta, formarão um só prédio baseado na mitologia grega. E, quando terminarmos a  construção do Creta, juntos eles serão exatamente como os palácios gregos, tipo o Parthenon. Para esse projeto, fui à Grécia e ao sul da Itália, onde há mais palácios gregos conservados que na própria Grécia. Finalizado, o nosso castelo terá 7 mil metros quadrados em dois motéis. Nenhum palácio da Grécia ou do sul da Itália tem essas proporções.

RM: Como foi começar tudo isso há 30 anos?

Gilberto: Motel era visto como uma coisa de segunda linha. E os proprietários de motel também eram tidos como pessoas de segunda linha. Quando disse para minha mãe que ia construir um motel, ela quase teve um infarto. Imagina um filho engenheiro indo trabalhar com motéis? Nós entramos com uma visão diferente, uma visão empresarial, até mesmo pela nossa formação. Já na PUC, onde lecionei por 25 anos, o pessoal ficava meio assim: eu, engenheiro, trabalhava numa empresa de engenharia e tinha um motel, além de lecionar. Era olhado de forma diferente, pois parecia que as atividades não combinavam. As minhas filhas sentiram menos o preconceito, mas também enfrentaram isso.

RM: Aliás, você trabalha com elas?

Gilberto: Sim. E, quando minhas filhas eram pequenas, nunca escondi o que eu fazia. Já tive um sócio que não contava nem para a esposa. A Aline especialmente, que é mais velha, sentiu mais na pele. Tinha gente que não falava com ela no colégio. Mas isso foi mudando. Depois a Aline fez radiologia, a Lissandra fez engenharia, e a Stefânia fez publicidade e propaganda. Foram trabalhar nas suas áreas inicialmente. A Aline, em um certo momento, começou a oferecer ajuda para mim. Deixei ela fazer um estágio nas férias de uma gerente, mas, como eu tinha uma sociedade, naquele momento ela não ficou. Depois, quando fiz o Sahara, já com outro sócio, que permanece até hoje, coloquei minha esposa de gerente. E a Aline de novo mostrou interesse. Então eu logo disse: filho é filho, mas precisa ter competência, se não vai procurar emprego em outro lugar. Aí ela trabalhava 4 horas com radiologia e 4 horas no motel. Todos os dias. Depois de um tempo, vimos que ela era realmente boa, e ela veio trabalhar comigo. Já a Lissandra era gerente de pessoa física num grande banco e estava numa boa carreira. Mas chegou um ponto em que seria transferida para Curitiba e não queria. Ela foi procurar em outros lugares, mas minha esposa a convidou para fazer um estágio conosco, porque, nessa época, a Aline estava grávida. Ela foi ficando e acabou gostando da coisa. E a Stefânia ficou com a área de marketing, que é mais a praia dela.

RM: Você considera sua trajetória no ramo recompensadora?

Gilberto: Sou apaixonado por arquitetura, apesar de ser engenheiro eletricista e engenheiro civil. Sempre imaginei algum tema e fui pesquisar para ser o mais próximo possível da realidade. Então, pensar em fazer um prédio de 7 mil metros quadrados com um investimento de R$ 8 milhões ou mais é só para quem é apaixonado por motel e arquitetura mesmo. Eu não sei quando terei esse retorno. Mas tem o prazer e a satisfação de ter um empreendimento que se diferencie dos demais. Não sei dizer se isso traz mais rentabilidade. Nossas empresas estão bem financeiramente. Mas, quando fazemos um projeto como esse, queremos que funcione bem, sendo bonito e diferente dos demais. E, normalmente, quando a gente faz algo com amor, o resultado financeiro se dá. Seguramente existem outras atividades e ou aplicações financeiras mais rentáveis do que investir em motel. Mas elas não darão a mesma satisfação que a nossa dá.

RM: Como você se inspira para criar suítes tão diferentes como a Calabouço e a Confesso, do Cálidon?

Gilberto: Para a Calabouço, eu fui atrás de um galpão velho de uma região agrícola só para pegar as madeiras velhas e podres. Comprei o galpão inteiro e, com as madeiras, fizemos formas para as paredes, que, na verdade, são de concreto fundido. Mas é uma perfeição, porque o molde veio de uma madeira mesmo. Vou sempre atrás de fazer próximo da realidade. Já na suíte Confesso, tirei a ideia de um confessionário polonês. E a cabine telefônica, da suíte Telephone, é uma réplica das de Londres, com um telefone que realmente funciona, que eu trouxe de lá. Temos também uma com cadeira de dentista e outra com uma gaiola, com um balanço dentro, para subir de verdade. É uma coisa bem diferente. Eu queria fazer uma suíte fúnebre, com caixões de defunto, mas fui impedido, vetado (risos).

RM: Uma coisa curiosa nos seus motéis é que você usa banheiras de granito. Por que isso?

Gilberto: É uma coisa que eu não vou mudar. Elas não quebram e são mais fáceis de limpar que a de fibra de vidro, que não dá para higienizar direito. Nossos spas são em acrílico; e os ofurôs, em madeira de cedro, como os japoneses verdadeiros, e é possível enchê-lo na temperatura correta, como manda o figurino legítimo. Mas eles também são adaptados com hidromassagem, para quem quiser curti-los como banheira.

RM: Você foi um dos pioneiros em construir suítes de festa. Como vê esse mercado? Vale a pena ocupar um grande espaço ou é melhor ter mais suítes?

Gilberto: As duas primeiras que fiz foram no Sahara. Lá, eu tive a ideia, e meu sócio me apoiou integralmente, pois, naquela época, todo mundo era meio contra por aqui. Fomos os pioneiros no Rio Grande do Sul, com duas suítes, cada uma com 300 metros quadrados e um elevador individual. Quando construímos, sabíamos que, economicamente, não traria retorno, mas agregaria muito para o nosso marketing. O fetiche que elas despertavam era imenso. No início, só iam casais. Hoje temos uma locação excelente, tanto que construímos a terceira no Sahara. Elas têm uma rentabilidade tão boa quanto a das suítes convencionais, além de agregar charme. Depois fizemos no Alpes e no Cálidon, com o lançamento da suíte Gourmet. É um tema que seguramente nenhum motel no Rio Grande do Sul tem. Você pode fazer festa também de culinária, com uma cozinha completa, além de muitos outros atrativos; e há um banheiro que é quase um vestiário, onde as mulheres podem até fofocar.

RM: Por que investir em suítes tão diferentes e não focar somente no convencional?

Gilberto: Temos que criar novo público. Não quero me manter só naquele perfil- padrão, que vai com o namorado (ou a namorada) no motel. Quero clientes que tenham outras ideias. O sujeito que vem tomar um chope com os amigos; gente que vem com a família do interior e se hospeda por aqui, na Gourmet, para passar o fim de semana. A pessoa deve vir para o motel para usá-lo a sua maneira: seja só para transar ou para fazer outra coisa que tenha vontade usando o espaço. Por isso, chamo os nossos motéis de espaços de prazer.

RM: O que podemos esperar daqui para frente?

Gilberto: Que a gente continue crescendo. Apesar de eu ter uma idade razoavelmente avançada, não perdi o ânimo de sonhar. Porque, quando a gente perde o sonho, a gente já morreu em vida. E eu só quero morrer quando for para ir para o caixão. Vamos criar coisas novas, sempre focando em atender bem o cliente. São 30 anos trabalhando nisso. E vou continuar a me atualizar. Quando um empreendimento estiver pronto, vamos partir para o outro e assim por diante. Teremos, em breve, um lançamento, que não vou comentar aqui porque é segredo de estado, mas acredito que, ainda neste ano, nós teremos um novo empreendimento. Será uma nova ideia para o mercado, diferente de tudo o que já existe. Não é cópia de ninguém.

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