Novos ares

Para se adequar à mudança de perfil do consumidor, o setor moteleiro começa a se renovar. Mas o que implica em novos negócios também pode ocasionar fechamentos de motéis que não se atualizam para esse público

 

Por Daniele Amorim

 

Era 2006 quando o moteleiro Vinícius Roveda percebeu que seu motel estava indo mal das pernas. O Bangalô Motel, em Santa Maria (RS), passava por dificuldades financeiras e não havia sinal de melhora. Para impulsionar o número de estadas em seu negócio, Roveda decidiu apostar no redirecionamento de público: casais com relacionamentos estáveis que estavam dispostos a investir em um entretenimento diferente como uma nova opção de lazer.

Para chamar o novo público, a decoração da suíte 37 mudou. Saíram a cor fosca das paredes, o jogo de cama estampado e as flores de plástico e entraram o papel de parede, as luzes de ambiente e ofurô. A divulgação do novo retrofit foi parar em salões de beleza e outros estabelecimentos com grande fluxo de mulheres, tudo para que elas pudessem conhecer o espaço e divulgar para amigas, colegas de trabalho e, principalmente, para seus parceiros ou parceiras.

A suíte foi um sucesso e o Bangalô Motel começou a apostar na decoração focada na hospitalidade em outros quartos. E com o case, Roveda abriu, com sua sócia Raquel Roveda, a Zeax Consultoria, para auxiliar moteleiros que precisam de novas perspectivas para aprimorar a gestão. Segundo o levantamento feito pelo Guia de Motéis com a empresa Hello Research, há respaldo para entender o porquê do redirecionamento de público ser tão importante para o aumento das estadas. Para quem é heavy user, ou seja, frequenta o motel uma vez ou mais por mês, a escolha do local é feita pela namorada ou esposa em 58% dos casos. Para usuários ocasionais, que vão até quatro vezes ao ano, esse número é de 49%.

As fotos mostram a suíte 37 do Bangalô Motel, em Santa Maria (RS), que foi o piloto para as experimentações feitas por Vinícius e Raquel Roveda. Nas fotos, o quarto nos anos de 1998, 2006 e como o local ficará após o término de sua atual reforma

 

Não é somente a mudança de consumidor que pode afetar as contas do motel. Outros exemplos como má gestão, desatualização, falta de sucessão e até mesmo a falta de gás do próprio moteleiro pode levar o empreendimento a fechar as portas. Um levantamento da Zeax Consultoria, feito para a revista Moteleiro, indica que, entre 2012 e 2017, 227 motéis tiveram suas atividades encerradas no Brasil, enquanto 66 foram abertos no mesmo período. Os dados foram retirados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), fornecida pelo Ministério do Trabalho. “Tem muitos moteleiros que dizem que o negócio dos motéis acabou”, afirma Roveda. “Mas quem está abrindo novos empreendimentos e convertendo nesse novo modelo de negócio está crescendo e expandindo.”

Outra informação apontada no levantamento mostra que, nos anos 2012 e 2017, a região que mais fechou motéis foi a sudeste, com 107 negócios encerrando suas atividades. Mas, mesmo com o número expressivo, é notável o movimento de moteleiros que querem aperfeiçoar seu negócio para não fechar. Esse é o cenário apontado pelo consultor e diretor do Núcleo Educacional da ABMotéis, Antonio Carlos Morilha: ”Estamos em abril e quatro moteleiros já me procuraram animados para fazer retrofit e implantar novos processos. Quem continuar sem fazer reforma, desatualizado e sem (rever seus) processos, vai perder a lucratividade”. Os clientes a quem Morilha se refere são moteleiros de São Paulo, que na pesquisa foi apontado como o estado com o maior número de fechamento de negócios do setor, com 66 motéis.

Um dos empresários que decidiu fechar as portas do seu negócio em São Paulo foi André Santos Teixeira, que há 15 anos comprou a gestão comercial do Motel My Love. Mas diferente dos motivos elencados pelos consultores, a justificativa do encerramento das atividades do motel vêm de uma batalha judicial que se arrasta há oito anos: “O dono do terreno não queria mais ceder o espaço para o motel, então, entramos com um processo para manter o funcionamento do My Love”, conta o moteleiro. O processo foi perdido e o motel fechou suas portas no final do mês de maio.

Em um movimento contrário, o nordeste foi a região que mais abriu negócios no setor no mesmo período analisado: 35 motéis. Uma das hipóteses para a ocorrência desse cenário é explicada por Roveda: “Essa mudança começou no nordeste. Hoje, a oxigenação começa a ficar evidente, mas se iniciou em 2005 e 2006. Nessa época, alguns motéis começaram a direcionar seu público para o conceito de hospitalidade”.

 

A terceira e quarta vias

A oxigenação do mercado moteleiro vai além da dualidade de negócios abertos ou fechados. A terceirização também pode ser o caminho para o empresário que está há algum tempo no setor, mas optou por repassar sua gestão e reformular seus negócios. Uma das empresas que fazem esse serviço é o LHG (Lush Hospitality Group), dos também sócios do Lush Motel, Felipe Martinez e Leonardo Dib.

O LHG atua no mercado moteleiro há dois anos, trabalhando com soluções para otimizar a gestão do motel: consultoria, abertura de franquia e terceirização. Seu primeiro cliente, o motel Anonimato, em Campinas (SP), optou por terceirizar a gestão de seu negócio para o LHG. “O investidor tem outros negócios e não tinha tempo de focar especificamente no motel”, explica Leonardo Dib.

O motel Anonimato se tornou Tout Motel e, além de ser o primeiro cliente da gestão terceirizada do LHG, a empresa tem planos de franquear a marca para moteleiros que gostariam de implementar os mesmos processos e estilização. Segundo Felipe Martinez, enquanto o protótipo do Tout é gerido, o LHG está conversando com outros dois possíveis parceiros para implementar as próximas unidades.

Outra estratégia adotada por moteleiros de todo o Brasil é comprar motéis já estabelecidos no mercado e reformá-los. “Não é fácil construir motéis em grandes capitais por conta do preço do terreno. É muito mais simples comprar um motel que esteja ruim e transformar em algo totalmente novo”, explica Morilha. Quem tomou essa decisão foram os novos proprietários do Studio A Motel, em São Paulo (SP). Há um ano, a nova administração adquiriu o local e começou a reformá-lo para atender melhor os clientes. O gerente Wagner Lopes conta a experiência: “Entendemos que atualização é essencial para que o consumidor possa receber um serviço novo”. Essa ação também foi feita por Felipe Martinez e Leonardo Dib. Os sócios do Lush Motel compraram o Motel Guarujá, em São Paulo (SP), em janeiro deste ano e irão reformar seu retrofit para transformá-lo na segunda unidade do Lush. A ideia é que as obras aconteçam paralelamente ao seu funcionamento.

O corretor Antônio Cardoso atua no segmento moteleiro há 18 anos, e para ele, o número de empresários com o objetivo de comprar motéis para reformá-lo vem crescendo nos últimos meses. “Desde as eleições, os moteleiros estão comprando mais empreendimentos. Acredito que isso aconteceu por uma maior certeza sobre qual caminho o setor econômico seguiria”, explica. Segundo ele,  cinco moteleiros já o procuraram desde o começo do ano para comprar outros negócios. E também, ele está responsável pela venda de oito empreendimentos no estado de São Paulo.

 

Além do setor moteleiro

A ABMotéis tem consciência da reformulação do setor moteleiro. E para ajudar a nortear o empresário nessa transição, a associação fornece palestras para profissionalizar ainda mais esse público. Acima, o diretor do núcleo educacional Antonio Morilha no workshop sobre Departamento Pessoal na sede da instituição

A mudança do perfil do cliente e da maneira como ele consome também é refletida em outros setores do mercado. Os empreendimentos de alojamentos em geral – como hotéis e hostels – e os serviços de alimentação também tiveram suas variações nos últimos anos. Segundo o Cadastro Central de Empresas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 316.062 empresas do ramo de alojamento e alimentação estavam cadastradas no órgão em 2012. Quatro anos depois, em 2016 (último ano da pesquisa), o número foi para 311.213. “Estamos passando por uma revolução no jeito de fazer negócio, e muita gente está precisando se adequar a esse novo modelo”, afirma Dib.

Atividades tão comuns na vida do brasileiro, como comprar pão, também passaram por uma mudança nos últimos anos. “Os supermercados começaram a concorrer diretamente com as padarias, pois, vendiam os produtos que são carros-chefes da panificação: pão e leite”, afirma o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), Rui Manuel Rodrigues Gonçalves. Para recuperar o fluxo de clientes e o faturamento, a decisão desses empresários foi diversificar o cardápio, inserindo itens como lanches e petiscos para a happy hour.

A ideia tem ido muito bem, obrigado. Segundo os indicadores da panificação e confeitaria brasileira da Abip em 2018, 64% do faturamento dos estabelecimentos do setor vem de produtos de fabricação própria.

E o veredito?

A oxigenação do setor é perceptível aos moteleiros. Mesmo com o subir e descer dos números de estabelecimentos pelo Brasil, a chave para continuar lucrando no negócio é a inovação. Seja atualizando seu serviço, seja terceirizando sua gestão ou franqueando o seu negócio. “Acho normal que vários motéis fechem suas atividades nos próximos anos. Talvez seja um movimento natural do próprio segmento se adequando ao número certo de motéis para a demanda existente. É impressionante a quantidade de motéis que abriram suas portas nos últimos 20 anos sem estudo de viabilidade nenhum”, fala o diretor comercial do Guia de Motéis, Rodolfo Elsas.

 

“Todos os setores precisam se reinventar. E exatamente porque aqueles que estão se adequando ainda sejam minoria, há mais fechamentos do que aberturas”, explica Felipe Martinez. A ideia é compartilhada por Roveda, que, desde 2006, entendeu a necessidade da oxigenação do setor: “Acredito que quanto mais motéis no País estiverem adaptados a esse conceito, melhor para o mercado como um todo”.

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