O milagre de chumbo

Na década de 1970, eu já estava na casa dos 20 anos de idade. Posso dizer um pouco sobre a produção, investimentos e lucratividade do setor industrial daquela época, sobretudo porque meu primeiro emprego foi em uma fábrica de máquinas para a indústria mecânica. “Milagre econômico brasileiro” é a denominação dada à época de crescimento econômico elevado durante o regime militar no Brasil, entre 1969 e 1973, também conhecida como “anos de chumbo”.

No setor moteleiro, se olharmos para os motéis construídos naquela época, vamos perceber que os empresários, sobretudo espanhóis e portugueses, se animaram e empreenderam fortemente. Quem constrói nos dias de hoje, saindo “do zero”, um motel com 90 apartamentos, 16 piscinas, metade das suítes com mais de 60 metros quadrados em área valorizada da cidade?

Naquele período do desenvolvimento brasileiro, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) saltou de 9,8% em 1968 para 14% ao ano em 1973. Foi, porém, um período paradoxal da história do Brasil. O historiador e jornalista Elio Gaspari, em sua obra A Ditadura Escancarada, diz o seguinte: “O milagre brasileiro e os anos de chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiam negando-se. Passados mais de 30 anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro”.

A recente notícia do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo, em São Paulo, foi um susto para quem conheceu aquelas linhas de produção. Investidor estrangeiro não tem motivos para ser patriota. Se a coisa complica por aqui, ele diz: “Vamos para a Malásia”. Penso que um dos motivos para essa onda de respeito e expectativa com Jair Messias Bolsonaro, um militar que ingressou na reserva em 1988 com o posto de capitão para concorrer à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, seja por conta dessa memória de um tempo de prosperidade que se tem em contraste com o regime que se retira, nascido no sindicalismo de São Bernardo do Campo, o mesmo que se mobiliza contra o fechamento da fábrica da Ford.

Mas o capitão Bolsonaro parece ter perdido o elo com o bom senso e cria para si mesmo encrencas gratuitas dia sim, dia não. Depois do caso golden shower, disse ele que “devemos a democracia à boa vontade dos militares” e, em seguida, agride sem motivos a jornalista Constança Rezende, do Estadão. Duvido que esses ataques de autoritarismo terminem bem. De outra parte, o vice, general Mourão, que começou mal, foi exonerado do cargo que ocupava no Exército por declarações que soaram golpistas, fez as pazes com seu superego e se tornou a voz da racionalidade na nova gestão. Vá entender.

O que se espera é que um salvador da pátria, seja quem for, nos leve de volta ao caminho do crescimento. Se o nome é Paulo Guedes ou Groucho Marx, pouco importa. O que vai contar é o resultado.

 

José Antônio Tavares

Advogado da ABMotéis

www.antoniotavares.com.br

Tel: 11 96364-4577

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